Vilém Flusser desloca o olhar sobre o design, tirando-o do campo meramente estético ou técnico e inserindo-o em uma reflexão filosófica, ética e social. O autor parte da origem etimológica da palavra “objeto”, que vem de ob-jectum, “aquilo que está no caminho”. A partir dessa ideia, entende-se que todo objeto é um obstáculo, algo que se interpõe entre nós e o mundo. Quando transformamos esse obstáculo em algo útil, nasce o objeto de uso, criado para afastar outros obstáculos do caminho humano.
Entretanto, Flusser revela a contradição fundamental do design: ao mesmo tempo em que criamos objetos para facilitar a vida, acabamos nos aprisionando por eles. Dependemos dos utensílios, ferramentas e tecnologias que produzimos, mas também nos tornamos limitados por eles. Os objetos de uso que herdamos de gerações anteriores são resultados de um longo processo de configuração cultural, e cada nova criação traz consigo uma responsabilidade. Quanto mais um designer ou inventor foca apenas na aparência ou na funcionalidade imediata de um objeto, sem considerar sua função social e comunicativa, mais irresponsável se torna o design, pois cria obstáculos para aqueles que virão depois.
Flusser observa também que vivemos um momento de dissociação entre objeto e matéria, pois, muitos dos objetos que nos cercam são intangíveis como por exemplo softwares, aplicativos e redes digitais e mesmo assim continuam sendo obstáculos, na medida em que mediam e limitam nossas ações. Por outro lado, esses objetos tornam mais visível o caráter de mediação, pois são meios de comunicação, instrumentos de relação e responsabilidade compartilhada entre criador e usuário.
O arquiteto, como o designer, cria espaços que servirão a outros. Por isso, não deve projetar pensando apenas na forma ou no cliente, mas nas pessoas que viverão, circularão e transformarão o espaço ao longo do tempo. Assim como os objetos de Flusser, os edifícios e cidades são obstáculos criados para remover outros obstáculos: abrigar, proteger, conectar. Mas, se concebidos de forma rígida ou egocêntrica, tornam-se barreiras para o futuro. O importante, não é o prédio em si, mas o processo de uso e a experiência das pessoas, libertando-as em vez de aprisionar tornando o espaço um meio vivo de comunicação e liberdade.
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